segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A importância de Se Sentir Amado

Vamos falar do apoio de quem nos ama após um diagnóstico tão terrível: Sou imensamente privilegiada!  Não me faltou carinho, motivação e cuidado permanente de toda a minha família. Em especial minha filha mais velha que se esmerou como minha cuidadora, enfermeira, motorista etc. Acompanhou-me em todos os momentos, passou por noites insones sempre atenta as minhas necessidades, seja com uma sopa quentinha, um suco, um curativo, um xarope para tosse ou um saquinho de emergência Aff e quantos!). Se preocupando com meu conforto, abrindo mão de sua própria família e de seus projetos para se dedicar exclusivamente a mim. Merece depois um relato apenas sobre ela e o farei. Filha iluminada! Não sei o que teria sido de mim, sem a sua vigília.

Mas, hoje vou falar do meu parceiro, da presença masculina na vida de uma mulher que descobre ter câncer de mama e o quanto ele tem um papel importante nesse momento.


Se não fosse a gravidade da doença por si só, que nos traz o pior de todos os medos, que é o da morte. Se não fosse toda a agressividade que o tratamento longo nos causa ao organismo com fraqueza, náuseas, vômitos, dores e lágrimas. Ainda enfrentamos o impacto da desconstrução de nossa autoestima. Perdemos o que de mais temos de precioso e que carrega o peso da nossa feminilidade. Simultaneamente de um só golpe, nos são arrancados os seios e os cabelos.

Como sobreviver a tantas perdas de uma só vez? Como suportar? Então nasce outro medo. O medo do abandono. A gente se questiona: Como meu marido vai reagir depois que eu me transformar em uma mulher sem seios, sem cabelos e sem saúde?

Nada pode descrever todo o impacto que o câncer de mama, infringe a uma mulher. Não sendo o bastante para enfrentar que é a luta pela vida, ainda somos despidas no corpo de tantos elementos que a nossa alma dói e fica exposta imensa, profundamente como uma ferida aberta. Impossível de esconder, difícil de curar.


No meu caso, sobretudo, ainda havia a distancia imposta pelo trabalho dele. Mas, o destino conspirou ao meu favor quando colocou em minha vida uma família especial e um companheiro iluminado.

Nada do que relatei até agora foi barreira para que ele se tornasse presente ao meu lado em todas as fases do meu tratamento. Sem descanso e sem me dar tempo de pensar no pior, não permitindo que a depressão se alojasse em meu coração.

Ninguém soube tão fortemente tomar para si a minha luta, como meu marido. Seus olhos nunca fugiram dos meus. Apesar do trabalho, esteve comigo em todos os momentos mais cruciais como a primeira consulta após o diagnóstico, para planejar quais seriam as armas disponíveis para enfrentar a batalha dali por diante.  E foi com rosas e um sorriso amoroso que ele surgiu de surpresa no quarto do hospital após a primeira mastectomia (fiz duas).

Foi com ternura e afeto, que ele me abraçou quando os cabelos, sobrancelhas e cílios se foram...

Foi mesmo estando a quilômetros de distancia, que sua voz e palavras de força e carinho me ajudaram a enfrentar cada obstáculo e mal estar que sentia em cada ciclo da quimioterapia.

Foi com imensa compaixão e gentileza que me apoiou em cada uma das duas rejeições de reconstrução da mama que não deram certo.

Transferir mesmo a distância toda confiança, coragem, apoio e carinho que eu necessitava, foi para ele com certeza o maior desafio enfrentado. Priorizar a mim e as minhas necessidades e não ter muitas vezes com quem dividir ou desabafar sobre seus próprios problemas, foi talvez prova de fogo a ele imposta. Olhar primeiro para o outro. Quantas pessoas são capazes de tamanho sacrifício por seu parceiro? Foi uma temporada apenas de via única, sem troca ou retorno.

Para mim, sempre será pouco a dizer do quanto foi importante e me fortaleceu cada gesto, cada palavra, cada movimento dado por ele em minha direção.

Graças a sua proteção, carinho, alegria e dedicação, eu sobrevivi e superei as cicatrizes que não tem mais importância, pois apesar de toda luta, jamais deixei de me sentir mulher!

Como diz uma amiga "Eu não sou o que me falta!" Essa certeza não me abandonou porque senti em meu marido e parceiro de tantos anos, os laços fortes que nos une.

Se tudo foi superado, foi graças ao seu empenho cúmplice...

Que todas as mulheres com câncer, possam ter parceiros que não só carreguem o status de "marido", mas que seja o guerreiro cúmplice e solidário nessa luta. Que seja a força que ampara seu momento frágil!

Vc foi isso para mim... Obrigado Deltinho... Te amo!!!

sábado, 16 de agosto de 2014

A função do tempo




“O tempo passa. O fôlego retorna. Parece milagre, mas a semente da cura começam a florescer nos mesmos jardins onde parecia que outra flor não brotaria mais. A alma é sábia, enquanto achamos que só existe dor, ela trabalha em silêncio para tecer o momento novo. E ele chega.”

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Infecção e rejeição da prótese...




Foi uma semana muito difícil, com altos e baixos e ontem a tarde veio a derradeira decisão que me levou de volta ao centro cirúrgico. Lá reencontrei além do Dr. Rodrigo, anjo que cuidou de mim todos esses dias, toda a equipe que me acompanhou há 8 dias atrás na primeira cirurgia, fiquei emocionada com o apoio e carinho de todos e Dr Leonardo o anestesista, conversava comigo com a voz calma e confortadora dizendo que Guimarães Rosa definia assim os reveses que enfrentamos:  "O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem... Foi a última coisa que ouvi antes apagar... A vida é assim mesmo uma grande aventura e aqui estou eu, sem os seios, mas ainda me mantendo inteira!

Águeda

domingo, 8 de junho de 2014

Pequenos Retalhos



O tempo, de vento em vento,desmanchou o penteado arrumadinho de várias certezas que eu tinha, e algumas vezes descabelou completamente a minha alma. 
Mesmo que isso tenha me assustado muito aqui e ali, no somatório de tudo, foi graça, alívio e abertura.

A gente não precisa de certezas estáticas.
A gente precisa é aprender a manha de saber se reinventar.
De se tornar manhã novíssima depois de cada longa noite escura. De duvidar até acreditar com o coração isento das crenças alheias.

A gente precisa é saber criar espaço,não importa o tamanho dos apertos.
A gente precisa é de um olhar fresco, que não envelhece, apesar de tudo o que já viu.
É de um amor que não enruga, apesar das memórias todas na pele da alma.
A gente precisa é deixar de ser sobrevivente para, finalmente, viver.
A gente precisa mesmo é aprender a ser feliz a partir do único lugar onde a felicidade pode começar, florir, esparramar seus ramos, compartilhar seus frutos.

Tudo o que eu vivi me trouxe até aqui e sou grata a tudo, invariavelmente.

Curvo meu coração em reverência a todos os mestres, espalhados pelos meus caminhos todos, vestidos de tantos jeitos, algumas vezes disfarçados de dor.

Eu mudei muito nos últimos anos, mais até do que já consigo notar, mas ainda não passei a acreditar em acaso.

(Ana Jácomo)